Mostrando postagens com marcador jornalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador jornalismo. Mostrar todas as postagens

18 dezembro 2007

[do ano que se acaba - 2]


Eu viajei muito esse ano, principalmente para os meus padrões. Logo no comecinho do ano, em março, ganhei de presente uma viagem para São Paulo. Afinal, mesmo que fosse à trabalho, nada me convence que viajar com tudo de graça pode ser trabalhoso de alguma forma.


Viagem rápida, de apenas um dia, mas suficiente para eu perceber o pandemônio organizado em que a cidade se assenta. Gente, muita gente, de todos os tipos e eu, errante pela Avenida Paulista, olhando para tudo como um bobo enamorado. Adorei São Paulo, mesmo decidindo que sua frieza é algo assustador.


Depois, outro rito de passagem. Na Semana Santa segui rumo à Fortaleza (após um acidente de carro que me privou forevá de dirigir tranquilamente na chuva), para meu último encontro de estudantes. De novo, lá estava eu, no meio de um bando de gente jovem, bonita, legal (ui), discutindo (ou não) essa tal comunicação que a gente tanto quer mudar.


Meu último Erecom me levou a perceber que, não adianta, a vida universitária é uma época curta demais. Tem gente demais parecida com você no mundo, na ótica do curso que a gente escolhe servindo como filtro e é nos encontros que isso aparece de forma mais real.


Só num Erecom da vida você pode retornar para o alojamento dentro do carro que levou a comida, conversando com uma moça super interessante do Rio Grande do Norte, enquanto come sua quentinha com a mão e segura a porta do carro, que é presa com uma corda. Só em um encontro você fica em frente ao palco dançando coreografias sem sentido, simplesmente porque é bom.


Só num encontro de estudantes de comunicação você passeia na rua de saia e não vê problema algum nos olhares diversos das pessoas que acompanham esse seu fetiche político. E só um encontro é capaz de fazer com que percebamos o quanto nosso curso é feito de pessoas e não de conteúdos, sendo elas, antes de tudo, a razão que deve te fazer seguir em frente (já disse que o texto pede um tom solene).


Fortaleza fechou bem essa minha vida de metido a estudante engajado. Apesar de ter me aventurado pelo movimento estudantil, percebi que tenho mais jeito para a ação e o plano das idéias ainda é o que predomina. Se esse não foi o motivo principal do meu abandono da organização do próximo encontro, certeza foi um bem forte.


Depois, mais pro fim do ano, voltei à Fortaleza, dessa vez em uma viagem em família, algo que não acontecia há muito tempo. Sempre tinha um problema que impedia de todos possuírem tempo, mas dessa vez tudo deu certinho. E, em uma viagem em que eu fiz praticamente nada, me diverti como há muito eu não conseguia.


O dia inteiro na praia, piscina ao chegar, comida de muito, rede e uma brisa que não cessava um instante. Três dias de sossego intenso, na companhia de Eduardo e cia. Acho que era preparação. O mesmo mês de outubro me levou de volta a Sampa, só que dessa vez nada de trabalho. Num golpe da sorte que ainda hoje eu fico sem acreditar, eu fui para o Tim Festival. Bom, dele eu já falei e muito, em um texto anterior. Deixo para continuar mais tarde... ainda tem muita coisa desse anozinho tinhoso.


15 dezembro 2007

[do ano que se acaba]


Eu encarei isso como verdade pra tentar um meio mais simples de, racionalmente, justificar os fatos que aconteceram. Dizem que o sete é o número da perfeição. Sete dias da semana, sete pecados capitais, sete horcruxes, sete virtudes, sete sacramentos. Apesar de aludir ao que seria perfeito, essa é uma característica enfadonha demais para ser colocado em alguém.


Então, sete passa a ser representativo de mudanças, pelo menos pra mim. Na busca incessante (e, ainda bem que assim o é) de se conseguir encontrar o que se faz perfeito, 2007 traz a mudança como algo necessário para que consigamos nos aproximar do que queremos ser. Você fica diferente e, como toda experiência em que o tempo te caleja, ela te faz sim melhor.


Lembro de 1997. Em dezembro do ano anterior, Luis Eduardo havia nascido. Praticamente em 1997. Não houve mudança maior na vida desde então. Em 1987, Camila, minha irmã nasceu e, apesar de eu não ter lembranças disso, foi uma mudança que também me afetou pra sempre. Estou sendo bem solene, mas é porque acho que o texto pede.


Tenho medo da repercussão que 2007 trará. Eu amei demais nesse ano, principalmente de forma velada. Daquelas de olhar e não ter, de ter de se contentar com a imaginação, de devaneios sem sentido porque eram mesmo. Chorei bem menos do que eu queria, menos até que nos anos anteriores, mas a dor enclausurada nunca esteve tão grande.


Meu pai fez palestras no sudeste e, mesmo que ela não tenha sido no mainstream Rio/São Paulo, foi um vislumbre que ele ainda vai bem mais longe. Minha mãe tomou com mais vontade as rédeas da sua vida, mesmo que ainda ela se sinta muito dependente da nossa felicidade pra basear a dela. Minha irmã entrou na faculdade e vai, de pouco a pouco, se encontrando no curso que escolheu. Eduardo cresceu, mais rápido do que todos os anos anteriores. Cada vez mais chega perto o dia em que beijá-lo durante horas seguidas não vai ser mais possível.


Trabalhei, desde janeiro, num jornal. Vi tudo que eu sempre esperava ver em relações de trabalho. Amigos de verdade, inimigos idem, puxação de saco e de tapete em várias intensidades. Saquei o quanto as pessoas têm necessidade de aparecer, mas falam merda e ainda ficam bem na fita porque o que conta é ter atitude e não inteligência. Vi que fazer jornalismo é bem mais legal do que parece, mas que só dá pra fazer se gostar. Caso contrário, bitole-se em concursos públicos e tenha vidinha de rico sem perspectiva de prazer no trabalho.


Tô me formando, o que, de cara, já seria a mudança significativa do ano. Principalmente porque ela não implica só que eu agora serei diplomado, isso é muito pouco. Não sinto mais a UFPI como minha casa já tem um bom tempo. Aliás, andar pelos corredores me dá agora uma sensação de despertencimento. Parece que eu não deveria estar ali, sinto isso no olhar das pessoas. Como se houvesse uma voz dizendo "Você não é daqui".


Sensação terrível. De um lugar que eu praticamente morei, passando, às vezes, de oito da manhã às dez da noite, que eu trabalhei pra melhorar, corri, enchi o meu saco, dos outros, aprendi o que eu agora sei fazer... Local em que a maior parte de mim eu consegui aceitar e, agora, eu vou embora com a estranha noção de que é isso que ela quer. A universidade se move de alunos novos, entrando e saindo daqueles corredores e eu agora estou velho demais pra isso.


Quem sabe eu volte. Por mim, não teria nem mesmo uma foto em placa de formatura, acho isso uma nostalgia demente. Mas você acaba indo com a maré, pra não ter que ouvir que quer ser diferente, quando na verdade nem é. Só quero ser eu mesmo. Mas, se já foi uma luta convencer a minha própria mãe de que não queria festa de formatura, seria demais para ela não me ver numa fotinha de placa. Vai pra ela esse esforço.


Aliás, esse ano eu fiz muitos esforços. Primeiro, claro, o de amar de forma velada, esse tão extenuante que ainda me atrasa. Também tive um trabalho danado para entender o quanto minha mãe me ama mais enquanto eu fico velho. As ligações se tornaram mais freqüentes, a necessidade em me fazer perceber o quanto ela sofre com a distância também. É engraçado. Não to reclamando nem nada. Mas eu pensei que sete (!) anos morando fora a tivessem feito se acostumar.



[continua]

28 novembro 2007

[the irrelevant times]

>> O ex-prefeito de Picos, José Nery de Sousa, foi preso e dormiu na penitenciária. Não tô virando comentarista político, mas isso me trouxe duas lembranças, uma dependente da outra. Meu pai foi secretário de cultura durante o mandato dele e, por uns bons anos, organizou o carnaval de lá. Num desses, em que o aniversário da minha mãe (23/02) caiu na terça-feira da festa, ele subiu ao trio elétrico no meio da noite, em frente à umas 10 mil pessoas, pediu que a banda parasse de tocar e fez uma declaração de amor para ela. Nisso, eu estava voltando com a moça que, à época, fazia minha cabeça e vi minha mãe aos prantos.


"O que foi, mãe?", perguntei assustado.


"Teu pai", ela disse e, na loucura, imaginei uma merda grande, ele a traindo com alguma piriguete interessada em coroas. Mas ela aponta pro trio e ele continuava lá em cima, dizendo que a amava.


Acho que isso aconteceu em 2003... e acho que, ainda hoje, ele faria tudo de novo. E, claro, minha mãe adorou aquilo...



>> Em meio à pedidos velados, findei por conseguir ganhar um aparelho de DVD. E não é um qualquer. Depois de mendigar em um de marca duvidosa (mas que me fez bem feliz, confesso), agora eu tenho um negão em casa, bonito, forte, másculo e, principalmente, tocando de tudo, inclusive DivX. A idéia juntou um montão de gente que torrou seu rico dinheiro em prol de um gostador de filme que estava à míngua. À eles, eternos agradecimentos!



>> Saiu a nova foto do Coringa, encarnado pelo ex-bichinha (tá, só no filme) Heath Ledger, sempre bom ator. Ela veio na capa da revista Empire e mostra que, se depender de figurino e expressão, o novo algoz do Batman vai conseguir ser ainda mais psicopata do que o do velho safado Jack Nicholson, no filme do Tim Burton. Se bem que comparar é foda, já que o aspecto realista que o Christofer Nolan injetou nas aventuras do Morcegão realmente pediam um Coringa menos palhaço e mais assassino. Eu acho que vão ser mermo válido. Roendo os dedos (as unhas já se foram) até o dia 18 de julho do ano que vem.



>> Daniel Radcliffe agora fica dizendo em entrevistas que não está muito chegado no clima mais direcionado às relações entre os personagens que o diretor David Yates está dando para “O enigma do Príncipe”. Ele diz que Rupert Grint e Emma Watson estão adorando um filme mais feliz e blá blá blá mas que ele é tribal-hard-core e gosta mais das cenas com a varinha na mão (¬¬). O certo é que esse menino está crescendo e ficando cada vez mais gótico (e chato, e pedante, e convencido, e zoofílico). Se ele acha que beijar na boca é menos interessante do que gritar magias, tudo bem, mas depois do que foi feito em “A ordem da Fênix” e sabendo de toda a trajetória de Voldemort exibida no livro seis, porque não se dar ao luxo de termos um pouquinho de pegação em Hogwarts? Eu acho muito dignas as idéias de Yates, gostei demais do seu trabalho no quinto porque senti que ele gosta de Harry Potter, apesar de, depois de conversar com Lucy, eu tenha concordado com ela que Peter Jackson deva ser o diretor do sétimo. Não, não... é brincadeira... quer dizer... assim, ah...aliás, nem sei. Dobby morreu...



>> Meu irmão faz 11 anos sábado. E vou ficar com ele em Picos, na festa que ele vai fazer em uma lan-house. É isso que vocês tão pensando: ele vai chamar um bando de gente e esse bando vai ficar jogando on-line por uma boa parte da noite, se não for a noite toda. Festas moderninhas em Picos, ya know? E, antes que você, Sanmya, pergunte assustada se tem lan-house em minha cidade, eu digo: TEM! =P



>> Ouçam Sweet Cherry Fury... é brasileira e é muito boa!

27 setembro 2007

[me conheço?]

Jamais vou esquecer os olhos lacrimosos da vovó quando eu anunciei que seria médico. Os eternos sonhos dela em ver netinhos de branco obtendo êxitos no Programa de Saúde da Família começavam em mim, abrindo as portas do exemplo de vida que seria meu curso ainda em concepção.

Mas eis que meus planos não passavam pela bata. Aliás, quando penso em toda a odisséia de escolhas que me levaram ao jornalismo, penso nas vezes em que vi o quanto o mais fácil nem sempre é o mais certo, mesmo que isso soe tão clichê.

Meu lance nunca foi sangue e pedaços de gente. Isso é muito cinematográfico e eu já havia visto o suficiente de Tarantino quando me dei conta que não sabia o que fazer da vida. E a verdade era essa. Eram tantas preocupações, já que a vida adolescente sem um exagero não se sustenta, que a própria idéia de saber o que eu queria para o resto dela me soava como desnecessária, mesmo sabendo o que eu não queria dela.

Um ano a mais de estudo, todos os cordados inertes novamente, professores amedrontando todos com os tridentes de outra desaprovação no vestibular e, de um estalo, tasquei a decisão: jornalismo.

Sem pompas, sem firulas, sem momentos de discussões com terapeutas vocacionais. Somente iluminação tardia, somado a um desespero maior que se instalava nos ânimos dos meus pais. De posse da vaga na universidade, se deram em mim os momentos de certeza, quando o caminho indicado se mostra o correto e você fica todo feliz com qualquer bobagem que dá certo.

Assim foi na primeira matéria que fiz, sobre a umbanda, que cheirava a leite de tão singela, já que eu ainda estava no primeiro período. Também o foi na primeira edição do famoso Calandragem, o jornal laboratório da Universidade Federal do Piauí.

E com minha voz no rádio, com meu rosto na televisão, com minhas sofridas (e, para não perder a rima, divertidas) desventuras de estagiário e, por fim, com uma monografia que vai me garantir um tema ainda para mestrado e doutorado.

O jornalismo não só me fez ser o que eu sou, resumindo em si a resposta à pergunta que originou esse texto. Ele chegou sem um porquê e agora, depois desses quatro anos, se mostra como certeza, mesmo que a explicação dessa certeza sempre esbarre na emoção de não saber explicá-la.

O fato é que sempre pensei na universidade como um filtro. Aqueles que possuem gostos parecidos se reúnem em nome de uma profissão a seguir. No meio do caminho ficam os que não se encontraram nas escolhas. Eu me encontrei nelas e nas pessoas que passaram. São as paixões mal resolvidas do Pedro Jansen. A determinação da Clarissa Poty. O medo de assumir o próprio talento do Edson Júnior. As incertezas da Sanmya Menezes. A inconstância do Marco Teles.

Todos jornalistas, todos meus amigos, todos decididos a, como eu, encontrarem uma resposta para dar a essa pergunta. Eu espero ter findado a procura: sou um jornalista, já decidi, com todas as incorreções que o termo permite.

Hoje, já tenho um primo médico, o que fez minha avó perder esse desejo tão intenso de me ver abrindo corpos. Na verdade, diferente do que eu imaginava, essa história de ela me ler todos os dias está fazendo com que acredite mais do que eu nessa minha decisão. Agora, toda pomposa, mostra os jornais às amigas e, cheia de certeza, diz: "Tá aqui meu jornalista da Veja". Agora, basta eu ajudar a fazer as predições da minha avó se tornarem reais.

18 setembro 2007

[prêmio]

[matéria premiada no Concurso Dom Avelar Brandão Vilela, como melhor de jornal impresso sobre a Caminhada da Fraternidade 2007]
.
A fé é um ato solitário. Para conseguir elevar-se até o lugar em que se encontra aquele ser ao qual você devota suas preces, por vezes é necessário fechar os olhos e ver dentro de si, para enxergar como se chega até ele. Entretanto, quando as preces se juntam em uníssono é que percebemos a força dessa fé, pois em cada olho fechado está um mesmo pedido.

Pensar em mais de 60 mil preces então é pensar em um poder de fé que consegue, de verdade, tocar Deus. Todas elas estiveram reunidas ontem (17), na 12ª Caminhada da Fraternidade. Em seus 7,6km de extensão, os fiéis teresinenses e de diversas cidades do estado enfrentaram o sol para demonstrar sua preocupação com o meio ambiente.

Com o tema “Vida e missão neste chão”, a Caminhada da Fraternidade, organizada pela Associação Social Arquidiocesana (ASA), juntou fiéis de todas as idades ao redor da Igreja de São Benedito, ponto de partida. Todo paramentado, com camisa da caminhada, boné e no seu carrinho, o pequeno João Victor, de dois anos, era um dos exemplos da mistura que era o evento.

Sua mãe, Bellynha Quaresma, na sua primeira caminhada, diz que está pagando uma promessa que fez a si mesma de que participaria. “Passei a noite acordada, mas estou aqui e nós dois vamos fazer todo o percurso”, garante.

De acordo com Emília Nunes, coordenadora do evento desde sua primeira edição, a cada ano a receptividade dos fiéis é maior. “Quando lembro que reunimos três mil pessoas na primeira vez e agora mais de 60 mil só posso dizer que é um sinal de Deus”, garante.

Segundo Emília, até a terceira edição, somente o Lar da Fraternidade era beneficiado com os recursos originados com a caminhada. Depois dela, o dinheiro arrecadado pôde ser dividido entre diversos projetos sociais. “Ajudamos cerca de cinco entidades com o dinheiro que conseguimos a cada ano e fazemos sempre a prestação de contas”, frisa.

Em seu discurso durante a celebração que antecedeu a caminhada, o padre Tony Batista, idealizador do evento, ressaltou que ela é um ato de amor, um grito de atenção para a causa ambiental. Segundo Tony Batista, a sensação causada pela caminhada é “escandalosamente alegre”.

“Ver a grandeza e a beleza da fé dessas pessoas me faz sentir a solidariedade que existe em cada um de nós. Fico sem palavras, porque o povo não se acomoda, participa e a cada ano aumenta”, assegurou, logo ao chegar ao ponto final da caminhada, no cruzamento da Avenida Universitária com a Avenida Ininga.

Realmente, os fiéis que seguem a caminhada não se deixam abater. Exemplo maior está em Saturnina Ramos de Oliveira que, aos 100 anos, estava atenta às palavras dos celebrantes da missa. Apesar da voz distante, o passo ainda era firme e ela afirmou que a fé era o que a mantinha participando da caminhada. “Quem me deixa vir é o pai Deus”, diz.

Cerca de 45 carros de som foram colocados ao longo do percurso para acompanhar os fiéis. No ponto final da caminhada, um palco mostrava vários shows, que eram transmitidos através dos carros para aqueles que caminhavam. Quando os fiéis começaram a chegar, foi montada uma quadrilha, mostrando que nem o sol nem o cansaço da caminhada tiraram o pique deles.

Com 68 anos, Joana Maria da Conceição Silva falou sobre a sorte que é conseguir, na sua idade, fazer o percurso inteiro. Ela diz que já faz isso há quatro edições e que vai participar enquanto puder. “Se Deus quiser estou aqui no ano que vem”, completa.

Já a eleita rainha caipira da quadrilha da Fraternidade, como foi batizada, dançou por entre as pessoas e deu show no palco. Aos 65 anos, Francisca Clemilda, ofegante após sua “apresentação”, só teve fôlego para dizer uma coisa: “Cansei”.

A fé faz você caminhar 7,6km, agüentar o calor de Teresina e, no caso do padre Tony Batista, já pensar nos preparativos para a 13ª Caminhada da Fraternidade. “Ela vai acontecer no dia 15 de junho de 2008”, fala. Mas, na hora do forró, nem mesmo a fé espanta o cansaço. Entretanto mostra que os fiéis não arredam o pé quando o assunto é fraternidade, mesmo que seja para dançar no asfalto quente.

13 setembro 2007

[ops! I did it again]


[coluna Zum Zum, caderno For Teens, Jornal Meio Norte de 13-09-07]
De paladina da virgindade à pop-bitch, Britney Spears já se deu ao luxo de ser tudo. Mesmo sem o poder camaleônico de Madonna, a sua musa que ela teima em imitar, Britney conseguia causar furor, fosse pela sensualidade com aura teen, fosse pelas saídas sem calcinha.

Mas, de uns tempos pra cá, a sensualidade foi dando lugar a cenas de terror estilo filme B, nas quais ela raspava a cabeça, lutava contra fotógrafos ou fumava quase acertando as cinzas no rosto dos filhos. Tudo bem, tudo bem. Engordar é um processo que, realmente, pode atrapalhar a vida de qualquer celebridade que depende não só da voz, mas no caso de Britney, os quilos a mais foram um pontapé para a coroação de seu declinío, acontecido essa semana.

Alardeado em todos os cantos do mundo pop, seu último single, Gimme More, seria lançado com todas as pompas no Video Music Awards (VMA), prêmio da MTV americana que aconteceu no último domingo (09) e iria servir como o retorno da loirinha aos braços do planeta inteiro. Mas, algo saiu diferente do planejado. Visivelmente nervosa, sem conseguir acompanhar a coreografia e enfiada em uma lingerie que não escondia nada de seus quilos a mais,o que Britney conseguiu foi deixar todos na platéia constrangidos.

"O grande acerto da noite, no entanto, foi Britney Spears. Todo mundo apostou que a apresentação dela seria um fiasco e Britney não nos decepcionou. Fez uma cagada das boas. Good girl!", resumiu bem o blogueiro Phelipe Cruz, do Papel Pop
. Mas, seja por conta de bebidas, como alegaram alguns, seja por nervosismo, como outros dizem, o que não me saí da cabeça é que, na ânsia de voltar a vender, Britney resolveu chutar o pau e fazer da seu retorno notícia pelo modo avesso.

Será mesmo que ela iria ganhar tanta exposição se tivesse aparecido dançando legalzinha, como se tivesse acabado de sair das férias? Eu acho que não. O lance, ao que parece, foi mesmo fazer papel de louca, com cara de quem não queria estar ali, para que os dois punhados de fãs que ainda acreditam que ela pode retornar, ficassem com peninha dela, e fizessem seu albúm vender por conta dela estar gorda e não saber mais dançar.

Jogada de marketing todo mundo faz. Quem faz bem, tipo a Amy Winehouse e seus problemas com as drogas, usa os defeitos como delírio pop e se tornam mais hypes. Britney já soube fazer isso de forma espetacular, como quando segurava a virgindade, mesmo gemendo melhor que muitas mocinhas, no clip de "I'm a Slave 4U". Agora, suas formas de aparecer incluem, além da apresentação pífia, as saídas sem calcinha. É, eu já falei mais em cima disso, mas vale lembrar que depois do VMA ela foi fotografada com as partes de fora, como se tudo estivesse normal.

O mundo pop é cruel. Britney, mais ainda com os fãs que lhe restam. Basta agora saber até quando eles vão endeusar uma musa drunk-bitch que acha que mostrar-se sem coberturas erógenas garante as vendas. Ops, you did it again, Britney. E ninguém sabe até quando ainda vão te fotografar por isso.

27 agosto 2007

[esgoto do bom]



O diretor Jorge Furtado tem um senso de humor fino. Só isso explica sua capacidade de nos fazer rir enquanto ele critica toda a estrutura cinematográfica brasileira, desde a maneira, por vezes sem sentido, que os recursos para a produção são distribuídos, até a forma de fazê-los nas coxas, sem perceber a real importância que um filme tem para a cultura do país.

Em Saneamento Básico – O filme (Brasil, 2007), o cineasta usa e abusa da meta-linguagem para produzir uma história que mistura esgoto e cinema. Na comunidade italiana de Linha Cristal, no sul do Brasil, os moradores decidem se reunir para, junto à prefeitura, requerer providências para a construção de uma fossa de esgotamento sanitário. Ao saberem que dinheiro para saneamento não existe, mas um recurso de R$ 10 mil foi enviado por Brasília para a produção de um filme, Marina (Fernanda Torres) decide que essa era a chance de eles terem o tão desejado esgoto.

Junto de seu marido, Joaquim (Wagner Moura), eles deixam se levar pela onda glauberiana de "uma câmera na mão e uma idéia na cabeça", e fazem um filme de ficção no qual um monstro nascido de uma mutação genética acorda de seu sono bem no dia em que a bela Silene Seagal (Camila Pitanga) estava à caminho do seu baile de formatura. O tino para a comédia de Furtado já é bem conhecido, principalmente pelo seu ótimo trabalho em O homem que copiava (2002), mas em Saneamento ele se supera.

Diferente da maioria das comédias americanas, em que a escatologia é o modos operandi da risada, o roteiro de Furtado é leve, sem deixar de ser inteligente e, o melhor, é incansável. Dos 112 minutos de filme, poucos não são supridos de risos. Claro que, aqui, existem algo além do que o roteiro. Como suporte indispensável está a ótima atuação, principalmente do casal Marina e Joaquim.

A capacidade dos dois irem da comédia ao drama numa troca de olhares, sem que exista pieguismos, mostra uma relação sólida e, por mais engraçada que seja, bonita. E Wagner Moura dá mais uma justificativa do hype que existe em cima de seu trabalho. O seu Joaquim é de uma ignorância tão terna que fica impossível você não entender porque ele quer tanto bancar a idéia de sua esposa.

Ao fim da sessão fica a dúvida do que realmente é importante. Na diferença entre cultura e saneamento, quais são as necessidades mais primordiais da população? Mesmo com a descoberta dos talentos, como o de Marina, fazendo as vezes de produtora, ao de Joaquim, um figurinista de monstros geneticamente modificados super competente, o único desejo deles é conseguir o dinheiro suficiente para construir a fossa. Não importa se o roteiro do que é produzido é ruim ou as atuações capengas: o que basta é que o filme seja feito e a verba possa ser entregue.

Sejam os maneirismos para conseguir patrocínios para a realização do filme, seja o abuso dos governantes, que se valem da idéia dos moradores para se promoverem ou mesmo de um desejo maior de, ora, simplesmente ter saúde para quem mora na vila, Saneamento Básico – O filme atesta o talento de Furtado e prova que, tenha sua rua esgoto ou não, vale muito a pena sair de casa para ver o filme dele.

03 agosto 2007

[uma vida iluminada (?)]

[porque eu sei que ela não vai ser publicada na íntegra mesmo...]

Um dos maiores símbolos dos 155 de Teresina não intimida as caras e bocas de Savana Vogue. Agarrada à cruz da Igreja de São Benedito, o travesti sente-se uma estrela, posando para as lentes fotográficas, com empinadas dos seus 3l de silicone no bumbum, bicos e levantar de pernas.


A noite da capital aniversariante não é feita somente de horários para se voltar para casa ou perigos que rondam alguma esquina vazia. O centro de Teresina ainda consegue manter sua vida mesmo quando o sol vai embora e, como parte essencial dela, estão os travestis que fazem ponto nas diversas esquinas do bairro.


"Teresina é uma cidade ótima. O preconceito diminuiu e hoje você consegue ser mais respeitada por ser travesti. Antes, entrar em um ônibus era o fim, isso se o motorista parasse para você. Agora não existe mais esse problema e a gente consegue ser bem tratada em quase todos os lugares", diz Savana, que tem 35 anos e é travesti desde os 22.


A vida dessas "mulheres" é uma montanha russa. Sempre bem humoradas e soltando diversas gírias típicas delas, o mundo em que vivem os travestis do centro de Teresina é único, pontuado por histórias de todos os tons. "Eu já cheguei a fazer até oito programas em uma só noite. Mas isso só acontece quando a gente acha um bofe bem bonito porque aí você não cobra nada e ainda faz de tudo, porque a gente também precisa se divertir", afirma Savana.


O sonho da maioria delas é embarcar para a Europa e ganhar em euro pelos programas, para depois casarem-se com um senhor rico do Velho Mundo. Excetuando o marido rico, receber muitos euros é a meta de Dandara Bionda.


Aos 23 anos, o travesti é voluptuos(a) como as famosas mulatas do Carnaval carioca, só que em versão loira e, depois de passar uma temporada em São Paulo, está de malas prontas para embarcar para Barcelona, na Espanha. "Meu namorado é corretor de imóveis em São Paulo e é louco de ciúmes de mim", garante.


"Pus 700ml de silicone nos seios e 1l no bumbum, gastando R$ 6 mil com tudo. Meu cabelo é metade meu, metade aplique e as minhas roupas, bem, essas eu compro as primeiras que eu acho na loja que caibam em mim", diz, com uma indiferença nada típica de mulheres, quando todos sabem que elas demoram muito para escolher o que vestir. "Demoro mesmo é com a maquiagem, gasto muito com ela, mas tem que ficar bonita para os bofes", garante, rindo.


Quando perguntada se não pretende fazer uma cirurgia para a retirada do pênis, Dandara dá uma gargalhada. "Você é louco? Como você acha que eu vou ganhar meu dinheiro? Os homens querem mesmo é o que eu tenho entre as pernas", revela. Segundo os travestis, quase 100% dos homens que contratam seus serviços querem ser passivos durante o sexo.


E mesmo entre as mulheres de verdade elas fazem sucesso. Dandara fala que recebe muitas cantadas delas, principalmente de ditas heterossexuais. "A gente acaba sendo tudo o que elas querem, porque entendemos a alma feminina e ainda temos uma coisa para futucá-las", afirma, rindo.


Ser travesti não é ser homossexual, apenas. Mesmo que elas sintam-se atraídas por pessoas do mesmo sexo, o desejo se parecer com as mulheres, em relação às roupas e o comportamento social é que melhor os define. E, claro, não é uma opção e sim uma orientação sexual.


"Desde criança que eu queria me vestir de mulher, parecer com elas. Quando eu conheci a Dandara, disse para ela que queria me vestir de mulher. Ela me montou e disse: 'Vai, demônio'. Isso eu tinha 10 anos", garante Rebeca Lorraine que também faz ponto nas esquinas da praça João Luís Ferreira.


A mais espevitada, Rebeca diz que quando desfilou pela casa vestida de mulher apanhou demais dos irmãos. "Um deles é policial e me odeia", diz, sorrindo. Ela também é quem conta as histórias mais fortes entre as entrevistadas.


Fala que, uma vez, levada com uma amiga por um grupo de jovens ricos da zona leste da cidade, teve sua cabeça colocada dentro da piscina, em uma tentativa de afogá-la. "Por sorte, a outra que foi comigo conseguiu ligar para a polícia, mas eles não fizeram nada. Ainda bem que aqueles playboys nos pagaram", lembra.



Mesmo as histórias mais trágicas, ganham conotações engraçadas quando ditas por elas. A mais antiga entre as entrevistadas, com 20 anos de ponto, Dayane Bianca diz que, antigamente, os travestis sofriam muito. "Antes, existia a turma do Melecão, uns riquinhos que se juntavam para bater nos travestis. Isso não existe mais", fala.

Ela lembra que, em uma das primeiras vezes em que se montou, estava próximo a Igreja de São Benedito com amigas. "Do nada, uma delas avistou a turma do Melecão e gritou para que a gente corresse", recorda. Dayane saiu correndo e disse que, mesmo com seus 95 quilos à época, pulou os muros do mosteiro de São Benedito em um único salto. "Ia muito ficar para apanhar, ia?", diz.


Não, não ia. Aliás, não o foi e voltou a rua, como todas fazem todas as noites. Porque o centro de Teresina é mais característico na presença dos seus travestis. E, no seu aniversário, como a todos que formam essa cidade, ela agradece.


Gírias:

1. Aliban: policial

2. Aquenda: ficar com alguém ou prestar atenção

3. Dzar: sair fora

4. O doce: levar uma surra ou fazer algo de ruim

5. Aqué, lajan: dinheiro

6. Ocó, bofe: homem

7. Mavu: ladrão

8. Mapô, racha: mulher

9. Elza: roubo ou ladrão

10. Caé: azar

11. Gravação: sexo oral

12. Eque, baque: desculpa esfarrapada

13. Cleide: polícia

14. Quebrar a louça: sexo entre travestis

15. Bolha: camisinha

16. Buboque: nariz

17. Apeti: peito

18. Mocozar: esconder

19. Baquiosa: mentirosa

20. Gongada, triscada: HIV soropositivo

05 julho 2007

[estrela solitária]


Minha relação com o futebol se deu em três instâncias básicas: a infância de certeza que eu era um perna de pau, a adolescência de percepção que nem para torcedor eu nasci e a idade adulta para constatar que ver seus amigos sofrendo durante um jogo por algo que você é indiferente pode ser extremamente engraçado e divertido, principalmente quando acompanhado de cerveja.

Já envolvendo biografias, eu sempre fui fascinado por elas. A certeza de que minha leitura é sobre algo que realmente aconteceu deixa com que minha mente avance na possibilidade de que minha vida seja, senão tão interessante quanto a dos biografados, pelo menos com a idéia de que as coisas podem sim vir a serem dignas de livro para mim.

Bem, como já é de praxe, eu sempre começo textos embromando para chegar ao assunto principal. No caso daqui, o assunto é a biografia “Estrela Solitária: um brasileiro chamado Garrinha”. Escrita por Ruy Castro, um biógrafo já consagrado, que fez livros da vida de Carmem Miranda e Nelson Rodrigues, o livro é a personificação daquela história de ascensão, apogeu e queda.

[digressão do dia: aprendi o que eram essas três palavras lendo quadrinhos da Turma da Mônica, quando o Cebolinha bola um plano quando aprende sobre essas palavras e diz que essa será a queda da dentuça. Bem, vocês imaginam o que aconteceu no fim, certo?]

Garrincha foi, de verdade, o deus da bola que todo mundo se acostumou a ouvir, nos saudosismos futebolísticos que são característica dos brasileiros. Durante todo o livro, Castro tenta nos passar (de forma bem passada, diga-se) a idéia de que Garrinha sempre jogou por prazer, não mais que isso. Dinheiro, fama, gols? Quem se importa?

O lance era mesmo poder brincar com a bola, fazê-la passear por seus pé e, num tilintar de olhos seguido de um espasmo de suas pernas tortas, mandar um adversário ao chão, se perguntando como algúem com os membros inferiores tão deformados (sim, essa é a palavra que o autor usa) possa ter tanto domínio do esporte.

Garrincha adorava tanto estar com a bola no pé que teve de ser educado para que tentasse enxergar que o objetivo era fazer gols e não fazer zagueiros comerem grama. Mas, se tem algo que ele jamais entendeu na vida era a necessidade de ser responsável, seja fazendo seu time vencer, seja com seu problema maior, o alcoolismo: foram inúmeras as tentativas de levar Garrinha a estudar, a treinar, a fazer tratamentos ou a qualquer coisa de que ele não tivesse vontade. Ele só fazia o que dava na telha.

Essa dificuldade em que ele fizesse o que era preciso sempre esbarrava no seu jeito moleque, de sorriso largo e fácil, de forma que todas as brigas eram contidas em sua ingenuidade. Qualquer pessoa perdoava Garrincha, desde técnicos que ele desfalcava à esposas que ele traia. E, se o quesito é mulher, traição era necessidade.

O homem era viciado em sexo. Todos os relatos do livro falam sobre a sua potência sexual, do seu nunca cansar e do tal membro bem maior que a média que ele possuia. Garrinha transava muito e sempre e todas as mulheres que teve conseguiu satisfazer mais que os outros. Não é à toa seu número oficial de filhos ser 14, mas sempre em dúvida pra mais, dado seu histórico.

Tudo parecia flor na vida do craque, sendo a metade inicial do livro somente de festa e alegria, na transformação do mito que o define. Daí em diante, esqueçam momentos felizes. A vida de Garrinha descarrilou de uma forma que você fica pedindo para que o livro acabe logo, tamanha angústia que se dá. O homem perde casa, perde dinheiro, perde filho, perde carro, perde jogo, perde até as pernas, que por conta do joelho, ficam, como dizer, podres.

Na época do apogeu, já chegando no declínio, entra na vida de Garrincha a mulher que, na minha opinião, merecia uma biografia tanto quanto ele: Elza Soares. Cara... Eu não fazia idéia do quanto a expressão “comeu o pão que o diabo amassou” poderia ser tão verdadeira. A mulher foi estuprada, apanhou, teve uma pá de filho, mas aí descobriu que sabia cantar, fez um escarcéu com sua voz e tornou-se diva.

Isso tudo transando freneticamente com Garrincha. Ele e Elza faziam da cama o cômodo principal da casa, ao ponto de vizinhos sentirem-se incomodados, perguntando-se como seria normal duas pessoas fazerem tanto sexo. A relação dos dois era baseada no carinho que Garrincha dava à Elza e a força que esta via em nele, sempre percebendo que ele tinha potencial para ir além. As frustadas tentativas de Elza em dar aulas à Garrincha davam uma certa medida de como ela cria nele.

Suas montanhas russas financeiras, tendo elas perdido três casas, vários carros e muito dinheiro nessa coisa toda, jamais foi motivo de tirarem o bom humor. A única coisa que realmente os afastou, sem a percepção de nenhum dos dois para a gravidade do problema, foi a bebida. Garrincha era, literalmente, um pé de cana. Bebia muito e pinga ou conhaque, nada de cerveja. Sua decorrada na segunda metade do livro é quase toda decorrente dessa doença que, à época, não foi vista como tal.

Falando mais de Ruy Castro, sua prosa é, no mínimo, excelente. Tem uma fluidez legal e, se acaso me senti tentado a deixar o livro sem terminar não foi por outra coisa senão a vida terrível que Garrincha levou depois de sua ascensão e seu apogeu. A queda não foi brusca, mas foi de tal modo intensa que tudo na vida do jogador se desfez ao mesmo tempo em que seu futebol ficava relegado ao passado.

Uma vida trágica, forte e, sem dúvida, com vários espetáculos. Digna de uma placa.

20 junho 2007

[o que prendo em meu coração]



Quando uma música é classificada como latina, a primeira imagem que me vem à cabeça é a Conga, da Glória Stefan, dizendo que você não consegue se controlar. Ou, mais recente, do latin-generic do Capim Cubano, com sua pose metrossexual e seu som caribenho-nordestino.

Entretanto, depois de Buena Vista Social Club, sei que existe bem mais que salsa e merengue nesse bolo e que, da ilha de onde saiu Ibrahim Ferrer, o som latino vai além dos estereótipos. Daí, pensar em toda a nossa miscigenação musical aliada à latinidad cubana é pensar em um som que, mesmo que não revolucione, passa um frescor de inteligência que arrebata.

Esse frescor vem da música de Marina de La Riva. Filha de uma mineira e de um cubano exilado no Brasil, a brasileira relutou em alçar-se à carreira, mas, ao fazê-lo, conseguiu reunir com talento impecável o charme cadente da música latina com um sopro de brasilidade.

Seja nas participações especiais, do gabarito de Dom Chico Buarque, em “Ojos Malignos”, e Davi Moraes, no frevo-samba-bolero-bossa “Ta-hí (pra você gostar de mim)” ou no belíssimo forró/tango (?) "Maria Fulô/ La mulata chancletera", que nos avisa que “chorar não ajuda ninguém”, seja no espírito cubano sincero de “Te amaré e después”, Marina é mais que outras das belas vozes femininas que vem tomando de conta da cena musical brasileira.

Com músicas em português e espanhol, a cantora quis fazer uma conexão entre os clássicos cubanos e a bossa nova. Em suas entrevistas, Marina fala que a inspiração para o CD veio do mar, o que provavelmente pode ser explicado pela sensação de tranqüilidade que se tem ao ouvir sua voz.

Porque, apesar de estar dentro dessa dita nova safra de vozes femininas, Marina de La Riva flerta com a inovação sem distorcê-la, juntando os tempos musicais brasileiro e cubano sem apelar para novidades sem caráter inovador, método por muitos usado sob justificativa de se estar fazendo algo diferente.

O som de Marina não é novo, sob a ótica de construir um outro estilo musical. Entretanto, é novo em relação à sua humildade ao cantar, numa levada tranqüila e sensível de voz, com instrumentação limpa e bem trabalhada, na qual todos os instrumentos têm o seu valor levado em consideração, mas a voz é quem os comanda. Diferente da pretensão de muitas cantoras que levantam bandeiras mpbistas.

Além do mérito musical, cabe um elogio ao trabalho primoroso dado ao encarte, suficientemente bem feito para que a idéia da compra de cópias piratas passe longe. Com fotos da bela cantora e as letras das músicas, ele vem de bônus nesse ótimo trabalho inicial de Marina de La Riva, que toma a frase do poeta José Martí, mártir da independência cubana, em sua apresentação dizendo que com esse disco “Yo sacaré lo que em el pecho tengo...”

11 junho 2007

[um não sei bem o que]


A gente fala muito das mazelas do jornalismo, da falta de apuro que muitos de nós temos em relação às matérias, da nossa preguiça em ouvir todos os lados e de condicionadores de ar inexistentes, que bloqueiam nosso pensamento no que colocar de bom para o leitor/ espectador.


Mas, de vez em quando, parece que o savoir faire jornalístico sai de dentro das redações e é quando conseguimos perceber que, muito menos que um número estatístico, como disse uma vez o repórter Nelson Blecher, o leitor/ espectador sabe que é dele que partem as notícias e a ele, como parte de toda uma sociedade, é que o jornal serve.


Bom, mas essa eloqüência toda é pra quê? Há duas semanas atrás, numa sexta-feira, o pior dos dias para se fazer matéria, um barulho infernal de buzinas tomou conta da redação. Nesses tempos de terrorismo, a gente pensa logo nem atentado, osama e coisa e tal. Bom, não eram terroristas, mas era um atentado.


Na madrugada anterior, um mototaxista havia sido assassinado, com dois tiros nas costas. As buzinas eram das motos de seus companheiros, que exigiam um tempo no programa Ronda para relatarem sua revolta com a falta de segurança para o trabalho deles.


A questão aqui não é discutir méritos jornalísticos do programa. Sei muito bem a que tipo de informação ele se preza e, principalmente, que ele tem muito pouco do que a gente deduz ser jornalismo (Pra quem não conhece, digamos que se o programa fosse espremido, sairia sangue e mais um bando de coisas).


O mérito fica por conta da percepção que esses mototaxistas tiveram do poder da imagem perante àqueles que deveriam cuidar dessa suposta segurança deles. Ali, durante o programa, o de maior audiência do estado, eles poderiam se fazer ouvir e o fizeram, de forma extrema.

Além do buzinaço, as trocentas motos e a revolta que por si só já detinha combustão espontânea, o corpo do mototaxista morto, com terno de madeira, terno de pano, algodão no nariz e braços cruzados foi velado na entrada do Sistema Meio Norte de Comunicação.


Claro que o Beto Rego, apresentador do programa, se refestelou, usando e abusando de imagens do corpo, gritando para as autoridades perceberem o quanto aquilo era um disparate, enquanto a mãe do morto pedia um abraço ao palhaço Chupetinha, uma espécie de bobo da corte que causa riso através da pena que causa.


Mas eu fiquei deslumbrado por perceber que, realmente, por mais viciado, partidário, mal acabado e jovem, ainda tem pessoas que acreditam que o jornalismo piauiense possa servir de algum modo. E se pareço utópico, não é porque ainda estou na academia e faço texto estudantil.


É porque, simplesmente, foi isso que eu senti. E foi bom...