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23 janeiro 2008

[alardeando]


E lá estava o vocalista da banda dizendo, em meio a nomes que não se encontravam, que a gente precisa mesmo é amar para, duas músicas depois, eu vê-lo dançando e dizendo que ela tinha mesmo era que pegar um fila bem grande. Junto aos acordes, eu amanheci e anoiteci, nessa minha guitarra desafinada que é meu entendimento da Tchecoslováquia.

E vou seguindo assim. Dias e noites de (in) constância que podem surgir em um sorriso bobo que se dá ou em uma raiva estranha de ficar sozinho, que eu vou, diletantemente (mas com o afinco dos paradoxos), absorvendo. Aliás, será isso mesmo? Absorve-se conhecimento e eu ainda não aprendi como parar de sentir isso, então, acho que seria melhor não pensar muito em esponjas. Até porque ter um rosto com duas metades diferentes é algo que não se segura: não há músculos que interpretem essa idéia.

Minha cara fica ou pra cima ou pra baixo e quando eu fico nessa dicotomia, dá uma câimbra, pior do que quando eu beijo dentro d’água. Prefiro a constância da liberdade, até porque eu nunca concordei com o Jobim. Mesmo sendo uma letra daquelas que se bastam, acho que conseguiria ser feliz sozinho. Também não é uma ode à liberdade, se pensarmos que eu gosto das chegadas surpresas quando corro para apagar tudo o que possa ser denúncia.

É mais como uma forma de extirpar a imensidão, porque algo que não explico só pode ser enorme. O meu “sozinho” é estar sem necessidade de aproximação, de não precisar ver um filme pra lembrar nem fazer associações musicais que me causam pensamentos lunáticos de bicicletas para duas pessoas.

O que eu espero de ser livre é acordar para o dia, dormir em meio à noite, em uma certeza de existência dessa divisão que vai me fazer pensar que eu tenho conserto. Tudo vai ficando azeitado junto; as peças desencaixadas pelo desejo (que não é sexual, ok?) vão se aprumando e eu vou poder sentir, de novo, que um bom cinema comigo mesmo é o melhor programa do meu domingo à tarde.


15 dezembro 2007

[do ano que se acaba]


Eu encarei isso como verdade pra tentar um meio mais simples de, racionalmente, justificar os fatos que aconteceram. Dizem que o sete é o número da perfeição. Sete dias da semana, sete pecados capitais, sete horcruxes, sete virtudes, sete sacramentos. Apesar de aludir ao que seria perfeito, essa é uma característica enfadonha demais para ser colocado em alguém.


Então, sete passa a ser representativo de mudanças, pelo menos pra mim. Na busca incessante (e, ainda bem que assim o é) de se conseguir encontrar o que se faz perfeito, 2007 traz a mudança como algo necessário para que consigamos nos aproximar do que queremos ser. Você fica diferente e, como toda experiência em que o tempo te caleja, ela te faz sim melhor.


Lembro de 1997. Em dezembro do ano anterior, Luis Eduardo havia nascido. Praticamente em 1997. Não houve mudança maior na vida desde então. Em 1987, Camila, minha irmã nasceu e, apesar de eu não ter lembranças disso, foi uma mudança que também me afetou pra sempre. Estou sendo bem solene, mas é porque acho que o texto pede.


Tenho medo da repercussão que 2007 trará. Eu amei demais nesse ano, principalmente de forma velada. Daquelas de olhar e não ter, de ter de se contentar com a imaginação, de devaneios sem sentido porque eram mesmo. Chorei bem menos do que eu queria, menos até que nos anos anteriores, mas a dor enclausurada nunca esteve tão grande.


Meu pai fez palestras no sudeste e, mesmo que ela não tenha sido no mainstream Rio/São Paulo, foi um vislumbre que ele ainda vai bem mais longe. Minha mãe tomou com mais vontade as rédeas da sua vida, mesmo que ainda ela se sinta muito dependente da nossa felicidade pra basear a dela. Minha irmã entrou na faculdade e vai, de pouco a pouco, se encontrando no curso que escolheu. Eduardo cresceu, mais rápido do que todos os anos anteriores. Cada vez mais chega perto o dia em que beijá-lo durante horas seguidas não vai ser mais possível.


Trabalhei, desde janeiro, num jornal. Vi tudo que eu sempre esperava ver em relações de trabalho. Amigos de verdade, inimigos idem, puxação de saco e de tapete em várias intensidades. Saquei o quanto as pessoas têm necessidade de aparecer, mas falam merda e ainda ficam bem na fita porque o que conta é ter atitude e não inteligência. Vi que fazer jornalismo é bem mais legal do que parece, mas que só dá pra fazer se gostar. Caso contrário, bitole-se em concursos públicos e tenha vidinha de rico sem perspectiva de prazer no trabalho.


Tô me formando, o que, de cara, já seria a mudança significativa do ano. Principalmente porque ela não implica só que eu agora serei diplomado, isso é muito pouco. Não sinto mais a UFPI como minha casa já tem um bom tempo. Aliás, andar pelos corredores me dá agora uma sensação de despertencimento. Parece que eu não deveria estar ali, sinto isso no olhar das pessoas. Como se houvesse uma voz dizendo "Você não é daqui".


Sensação terrível. De um lugar que eu praticamente morei, passando, às vezes, de oito da manhã às dez da noite, que eu trabalhei pra melhorar, corri, enchi o meu saco, dos outros, aprendi o que eu agora sei fazer... Local em que a maior parte de mim eu consegui aceitar e, agora, eu vou embora com a estranha noção de que é isso que ela quer. A universidade se move de alunos novos, entrando e saindo daqueles corredores e eu agora estou velho demais pra isso.


Quem sabe eu volte. Por mim, não teria nem mesmo uma foto em placa de formatura, acho isso uma nostalgia demente. Mas você acaba indo com a maré, pra não ter que ouvir que quer ser diferente, quando na verdade nem é. Só quero ser eu mesmo. Mas, se já foi uma luta convencer a minha própria mãe de que não queria festa de formatura, seria demais para ela não me ver numa fotinha de placa. Vai pra ela esse esforço.


Aliás, esse ano eu fiz muitos esforços. Primeiro, claro, o de amar de forma velada, esse tão extenuante que ainda me atrasa. Também tive um trabalho danado para entender o quanto minha mãe me ama mais enquanto eu fico velho. As ligações se tornaram mais freqüentes, a necessidade em me fazer perceber o quanto ela sofre com a distância também. É engraçado. Não to reclamando nem nada. Mas eu pensei que sete (!) anos morando fora a tivessem feito se acostumar.



[continua]

03 dezembro 2007

[mais pedaços]


Tem certas pessoas que a gente afasta mesmo. Se tem algo que eu odeio e já expus trocentas vezes essa opinião é aquela história de ficarem usando frases de "O pequeno príncipe" para garantir que meu coração seja tocado pela culpa de não cuidar dos amores alheios do jeito que os outros acham certo. Eu não sou responsável pelo que eu cativo.

Não existe essa responsabilidade tão unilateral. Mas sempre sou eu a ouvir esse epitáfio nojento. Se eu não consigo manter as pessoas por perto ou mesmo se eu dou um jeito de me afastar de algumas, isso não me faz um monstro insensível. O que eu sou, então? Aí eu já não sei. O certo é que nem sempre eu quero estar perto das pessoas, mesmo que a minha carência me faça possuir carteirinha do clube e tudo.

Adoro ter gente na minha casa, chegar e ver alguém lá dentro. Não sei se está lá porque moro perto da UFPI, não sei se foi porque se sente bem ali. O certo é que me faz bem ter gente comigo e não preciso saber os motivos dela para isso. Mas, morar sozinho não me faz querer estar sempre na rua, me refestelando em festas e animações mil. É, adoro gente por perto, adoro a sensação de ter quem eu gosto comigo.

Porém, não ter uma família faz com que as pessoas te julguem sem vontade própria, simplesmente porque você não terá uma mãe te ligando na madrugada para dizer que é hora de voltar. Mas eu tenho de voltar, eu tenho de ficar, eu tenho família. E não é por conta disso que deixei de querer estar com outras pessoas, gostar delas, amá-las até.

Eu falo muito isso, claro, porque eu me sinto culpado. Meu distanciamento natural não tem nada de falta de amor. Aliás, toda aquela história de intensidade confirma que eu sinto o que eu digo. Amar para mim é fácil, o difícil é continuar amando. Então, eu deixo. Não gosto de autoflagelação, aí eu entrego para quem pensa demais. Não é egoísmo, é auto-preservação.

Não concebo amor com sofrimento. São sentimentos muito díspares, que não tem necessidade de estarem juntos. Então, seja em relações carnais ou de amizade, tudo tem um fim, acaba, it's over, baby! E ficar naquele remanso de ressuscitação só faz como que percebamos cada vez mais o que o outro não tem mais nada a oferecer a nós mesmos e nos seguremos no que, no início, fez com que ficássemos amigos (amor sem sexo = amizade, mas continua sendo amor).

Amigos para sempre? Pode ser... não deixo jamais de ter um sentimentozinho aceso que permita que eu acredite nisso. Mas ainda opto pela praticidade. Mesmo que ela venha envolta de uma culpa suprema e uma dor galopante... que passa. E eu perdi o eixo desse falatório todo, misturei tudo e, de novo, não sei por quê estou tocando nesse assunto... Mas ele volta...

20 outubro 2007

[raiva de olhos azuis]


Eu odeio que, em lances de amor, me peçam racionalidade enquanto eu me encontro em um poço de ódio. É lindo sair por aí pagando de superior, escondendo a sua raiva como se nada te afetasse, como se dignidade fosse sinônimo de indiferença. Mas não é.

Esconder o que se está sentindo apenas para aparentar que tudo está bem é uma faca de dois gumes, porque o controle da raiva é tão facinho de ser quebrado que chega a me fazer rir as histórias que eu conheço de “tudo está bem, mesmo com a merda”.

Mas, óbvio, sentir-se na merda obriga a nada estar bem e, disso, surgem atitudes tão infantis daqueles que se amam (ram) e até mesmo expectativas bobas das atitudes “racionais” advindas do fim que me causam espanto.

É gente que escreve textos sem nomes, mas citando características que fazem todo o sentido necessário, como se estivesse todo feliz em encontrar possibilidades de novo amor, mas só querem afetar o antigo.

São aqueles que não resistem à uma boa fuçada em todos os meios internéticos para descobrir o que o outro está fazendo, mas jamais admitiriam isso. É quem espera que o amor seja algo tão sublime, que faça com que as ações que surgem do fim dele se amparem em tudo que representou, garantindo sorrisos mesmo quando a vontade é o choro.

Parece até que eu estou fazendo o mesmo, citando exemplos como se fossem invenções minhas, mas é porque não sou a palmatória do mundo e acho que essa racionalidade que todos desejam aparentar é tão falsa que as atitudes se tornam visivelmente sem sentido para quem as faz.

Por isso que nunca deu certo tentar ficar amigo de minhas ex-namoradas. Por mais que pareça existir essa amizade, por mais que exista carinho, desejo de felicidade mútua e mesmo uma saudade boa, a intimidade de um relacionamento é uma arma eterna para quem não está mais junto.

Seja sua performance sexual, suas nóias, seus amores além dela, tudo em quanto fica guardado e pode ser usado em uma conversa bobinha, de “amigos”, como se nada daquilo representasse mais. O problema é que mágoa fica e sou daqueles que crêem demais que, mesmo sem raiva, certas lembranças só se tornam lembranças porque são insuperáveis e representam o amor que não deu certo.

Amor que acaba é algo que não se esquece. Não importa o quanto amor você tenha daqui pra frente, mas, se já amou outra vez, acreditou que era a última. Sendo assim, acreditou também que se não deu é porque alguém fez errado e quase ninguém, para soar democrático, pensa que a culpa foi sua.

O que eu quero mesmo é não falar, não manter contato, não ouvir sequer o nome ou encontrar em um bar sujo sozinho para tomar cerveja. Quero é distância, tempo para que eu pense no que fiz ou no que fizeram comigo, mesmo sabendo que nada disso vai fazer a raiva ir embora rápido.

É questão de maturidade, que não quer dizer entendimento completo e cristão. “Eu não te amo mais”, “Você me faz sofrer pra caralho”, “Eu preciso de um tempo pra mim”, “Eu acho que gosto de outra pessoa”, “Eu te traí”, “Você me traiu”, “Nós traímos”, não importa quais foram os motivos que te levaram ao fim.

Só não me peça pra ser legal com você depois disso...


11 setembro 2007

[1 + 1 = ?]


Eu cansei da monogamia. Minha inveja da felicidade alheia já chegou no limite e eu não tenho mais saco algum de ficar olhando os casais felizes, sorrindo do vento simplesmente porque estão juntos. Cansei de querer ir à um lugar e não ter alguém de companhia, mesmo que seja para que eu não coma sozinho, de voltar pra casa só eu mesmo, enquanto todo mundo volta junto e, mesmo que durma só, ganha um boa noite apaixonado, com juras de dia seguinte.


Cansei dessa felicidade partilhada de futuro, com planos pensados em dupla, em conta e cartão de crédito conjunto, da necessidade de ligar para saber se deve ou não comprar um video-game, se deve comprar uma camisa, um cd, um dvd, e de ver que aquela pergunta é que define, por vezes, o que o outro vai ter ou não. De ciúme enrustido (ah, como odeio ciúme enrustido), brigas por idiotice, tantas e tantas brigas por idiotices e de pazes feitas sem a idéia de que aquela bobagem toda serviu para alguma coisa.


Cansei de aturar a dor dos outros, quando eu mesmo não tenho mais saco para aguentar a minha. Dessa necessidade de se ser sincero sempre que existe entre os casais, que impede que você tenha histórias só sua com outra pessoa, porque sabe que um terceiro sempre irá saber além daqueles dois. Cansei das mesas em que fico em um canto separado, enquanto os braços em volta do pescoço se aglomeram e aquele clima de cochicho aparece de vez em quando, sem que você possa saber, porque eles sim podem ter histórias só dos dois.


Cansei de mãos dadas, beijos pequenos, médios, grandes, abraço com perna levantada e filme romântico. De casal de novela, história de portão, escova de dente na casa do outro, juras de eternidade. Cansei de apelidos carinhosos, saudade e juras de sexo, de histórias de sexo, de lembranças de sexo, de brincadeiras com sexo (o que pior que amor monogâmico? Sexo monogâmico?). Cansei do amor alheio, principalmente porque eu ainda me sinto incapacitado de fazer o mesmo.

29 maio 2007

[tipinhos]


quem já teve a chance de pegar o universidade circular às 7h da matina, sabe que a experiência pode ser extremamente antropológica. circular (?) pelas dependências do yellow bus é encontrar a maior sorte de tipinhos estranhos, daqueles que te fazer se perguntar "por que meu deus?" e pedir que a viagem demore menos, coisa que não acontece nunca para mim, que moro a uma hora do trabalho.

mas por que o comentário sobre isso do nada?

bem... não é do nada. é porque hoje a minha cota de paciência estourou para com aqueles seres estranhos quando aconteceu de, por quase 20 minutos, um jovem senhora gorda e flácida resolveu colocar suas pelancas para recostarem-se em mim.

aquela coisa gelatinosa percorria meu braço, avançava sobre meu ombro e queria se aproximar do meu rosto. mas, você pensa que ela fazia isso porque, coitada, não tinha lugar para sentar? errado! a jovem senhora gorda e flácida tinha três lugares para sentar a bunda, mas resolve que, melhor que isso seria manter o roça-roça no meu braço.

não agüentando mais aquela situação erótico-deprimente (erótico pra ela, deprimente pra mim), resolvi mudar de lugar. ah, mas por que irritar é pouco, no momento em que repouso meu corpo em um novo assento... deus, a vaca resolve sentar!!

quéisso porra? ela realmente estava querendo roçar a gordura trans no meu braço? será que pode existir alguém tão nojento?

pqp!

daí, comecei a olhar mais especificamente para os outros transeuntes do yellow bus. tem o cobrador sorriso, que sempre está de bom humor, mesmo com aqueles passageiros mais sem noção de todos.

tem a velha-cabelo-bruxa-sorriso-de-osso, uma mulher que vive rindo, o tempo inteiro, mas um sorriso viciado, em formato de osso de desenho animado. ela conhece todos dentro do ônibus, é um troca troca de figurinhas estúpido que sempre me deixa zonzo e com sono.

tem a priscilla, a rainha da periferia, um cara que tem o rosto mais apropriado para drag queen que eu já vi. tenho certeza que ele é o primeiro a entrar no ônibus, porque sempre ta lá no fundão. ele tem umas curvinhas no rosto redondo que me parecem perfeitas para a passagem de um blush (ui!) ou algo mais. luxo!

as feias facid me deprimem, porque eu sempre criei a idéia de que faculdades particulares teriam menininhas lindas, todas com aquela carinha de quem não estudou o suficiente pois tinha de curtir balada. mas as feias facia tem nariz adunco, barrigas celulíticas e um gosto duvidoso para modelitos universitários. não quero ser consultado por nenhuma (andam sempre de bata, ora pois pois).

por fim, vem as irmãs concurso, três feiosinhas que parecem da mesma família, mas sempre que entram no yellow bus sentam separadas. coisa mais manuel carlos, nam! elas chegam carregando os caderninhos na frente do peito e se acham as coisas mais bunitinhas, porque é uma pose...

enfim...

ter que andar de ônibus me deprime...

sempre...