29 agosto 2007

[ele+ela]


Brincavam. Já era fim de tarde, mas eles ainda brincavam. O terreno, bem perto da casa dos dois, já estava vazio, depois de tantas crianças se divertindo juntas. Já havia tido bandeirinha, se esconda, queimada... Depois de todos cansados, só os dois mantinham a força, removendo terra à procura de algum tesouro.

Não sentiam vontade de sair. A companhia um do outro era boa: ele sabia mais brincadeiras que ela. Ela tinha bem mais imaginação para incrementar as brincadeiras que ele. Na rua, nunca tinha existido essas divisões entre o que era de menino e menina. Todos se divertiam juntos, fosse jogando futebol (o qual ela fazia muito bem), fosse na amarelinha (três cicatrizes eternas na perna dele, por conta de quedas homéricas no céu), o lance era juntar o maior número de crianças, para que demorasse mais.

Só restavam os dois, contudo, e a vontade de continuar era a mesma. Ela disse que os tesouros vinham para as princesas e ele retrucava falando que princesas não tinham os dedos imundos de terra molhada. Ela ria. Estavam embaixo de uma goiabeira que sempre fora motivo de confusão na turma, por conta de quem conseguia subir nela.

Ele sempre fora ágil, magrinho, daqueles que passam em meio a multidão como se estivesse correndo em campo aberto. Ela, por ser um ano mais velha, já estava mais encorpada, sendo mesmo mais forte que ele. Depois de perceberem que, muito mais que competir, podiam juntar as qualidade, sempre tinham mais goiaba que os outros. E ele ainda dizia que o suco de goiaba com leite dela era melhor que sorvete de morango.

A goiabeira estava sem frutas, a época já havia passado. Umas poucas folhas não impediam a luz dormente do sol batesse nos olhos deles, mas não importava. O tesouro tinha de ser achado, dizia ela, “eu sei que o pirata colocou ele aqui”. Dessa vez, ele que riu. Adorou pensar em piratas numa cidade tão distante do mar, principalmente quando ela disse que eram piratas espaciais e teriam chegado voando em naves que imitavam navios, com âncoras virtuais e chapéus computadores.

“Como você pensa tudo isso?”, perguntou curioso, ainda rindo. Ela soltou um muxoxo, como que desinteressada, mas ao dizer que pensava para fazê-lo rir, ficou vermelha. A luz do sol batia de frente à ele, o impedindo de ter visto, mas ouvir fez bem pra ele, simplesmente. Passou mais um tempo, a noite teimava em não chegar e eles continuavam a brincar parados, somente olhando de vez em quando um para o outro.

Às vezes, ele jogava um punhado de terra nela, que retribuía ao mesmo tempo em que se aproximava. Quando sobrava apenas uma réstia de sol, ele pediu que ela chegasse mais perto: tinha encontrado algo que parecia com a alça de um baú e que ela era de ouro.

Ela sentou bem de frente à ele e o ajudou a cavar. As mãozinhas pequenas iam aumentando o buraco, e eles faziam mais força. Ele se ajoelhou e, impressionado, viu que realmente havia algo ali. Quem puxou foi ela: com aspecto velho, um grande relógio dourado, com ponteiros pretos, ainda marcava as horas. “Está funcionando”, ela disse. Ele, rindo, perguntou que horas eram. “Hora de ir pra casa”, respondeu. Levantou-se rápido, deu um beijo nele e aproveitou os últimos raios de sol para chegar em casa antes de anoitecer.

27 agosto 2007

[esgoto do bom]



O diretor Jorge Furtado tem um senso de humor fino. Só isso explica sua capacidade de nos fazer rir enquanto ele critica toda a estrutura cinematográfica brasileira, desde a maneira, por vezes sem sentido, que os recursos para a produção são distribuídos, até a forma de fazê-los nas coxas, sem perceber a real importância que um filme tem para a cultura do país.

Em Saneamento Básico – O filme (Brasil, 2007), o cineasta usa e abusa da meta-linguagem para produzir uma história que mistura esgoto e cinema. Na comunidade italiana de Linha Cristal, no sul do Brasil, os moradores decidem se reunir para, junto à prefeitura, requerer providências para a construção de uma fossa de esgotamento sanitário. Ao saberem que dinheiro para saneamento não existe, mas um recurso de R$ 10 mil foi enviado por Brasília para a produção de um filme, Marina (Fernanda Torres) decide que essa era a chance de eles terem o tão desejado esgoto.

Junto de seu marido, Joaquim (Wagner Moura), eles deixam se levar pela onda glauberiana de "uma câmera na mão e uma idéia na cabeça", e fazem um filme de ficção no qual um monstro nascido de uma mutação genética acorda de seu sono bem no dia em que a bela Silene Seagal (Camila Pitanga) estava à caminho do seu baile de formatura. O tino para a comédia de Furtado já é bem conhecido, principalmente pelo seu ótimo trabalho em O homem que copiava (2002), mas em Saneamento ele se supera.

Diferente da maioria das comédias americanas, em que a escatologia é o modos operandi da risada, o roteiro de Furtado é leve, sem deixar de ser inteligente e, o melhor, é incansável. Dos 112 minutos de filme, poucos não são supridos de risos. Claro que, aqui, existem algo além do que o roteiro. Como suporte indispensável está a ótima atuação, principalmente do casal Marina e Joaquim.

A capacidade dos dois irem da comédia ao drama numa troca de olhares, sem que exista pieguismos, mostra uma relação sólida e, por mais engraçada que seja, bonita. E Wagner Moura dá mais uma justificativa do hype que existe em cima de seu trabalho. O seu Joaquim é de uma ignorância tão terna que fica impossível você não entender porque ele quer tanto bancar a idéia de sua esposa.

Ao fim da sessão fica a dúvida do que realmente é importante. Na diferença entre cultura e saneamento, quais são as necessidades mais primordiais da população? Mesmo com a descoberta dos talentos, como o de Marina, fazendo as vezes de produtora, ao de Joaquim, um figurinista de monstros geneticamente modificados super competente, o único desejo deles é conseguir o dinheiro suficiente para construir a fossa. Não importa se o roteiro do que é produzido é ruim ou as atuações capengas: o que basta é que o filme seja feito e a verba possa ser entregue.

Sejam os maneirismos para conseguir patrocínios para a realização do filme, seja o abuso dos governantes, que se valem da idéia dos moradores para se promoverem ou mesmo de um desejo maior de, ora, simplesmente ter saúde para quem mora na vila, Saneamento Básico – O filme atesta o talento de Furtado e prova que, tenha sua rua esgoto ou não, vale muito a pena sair de casa para ver o filme dele.

23 agosto 2007

[yeah yeah right]


"Aparentemente, o simples fato de sermos humanos já é suficientemente dramático para todos nós; não é preciso ser viciado em heroína ou ator perfomático para vivenciar emoções extremadas. Só é preciso amar alguém"


Como ser legal - Nick Hornby
[and now, leave me alone]

21 agosto 2007

[eu te digo]

Você parece sempre sentir medo quando eu estou por perto. Um receio, um temor... misturado à uma necessidade de manter-se ao me lado. Me abraça por segundos determinados, tempo suficiente para que eu não pense nada além deles e beija a minha cabeça sem tocá-la, como se uma mão a mais pudesse entregar tuas vontades.

Claro que é pretensão demais minha imaginar que elas existam. Imagino que você as tenha porque é bom para mim. Eu adoro sonhar que, realmente, suas mãos querem ir além. Que nosso abraço pode durar mais um pouco, até que a gente sinta por completo nossos corpos um no outro. Que um beijo não seja nada além de um beijo, só para que ele possa acontecer e não te faça sentir culpa por achar que é errado.

Eu acho que seria bom. Seria bom você não ter medo de mim. Não esperar que eu tenha ação, quando na verdade eu também fico cheio de receios. Mas, eu também não acho que estaríamos sendo corretos. São tantas pessoas envolvidas, tantos problemas que um suposto amor pode trazer, que me dá preguiça de ser herói e lutar contra os moinhos de vendo, principalmente por achar que apaixonar-me por você é algo fácil.

Por mim, continuo a ter o que tenho, mesmo imaginando mais longe. Com quando passo a mão nos teus cabelos lisos, em um cafuné demorado, enquanto você finge que dorme, resmungando que eu não mexa com você. Ou ouço teu riso demorado, sincero, alto, quando eu te conto aquelas histórias que todo mundo acha sem graça, mas você consegue perceber onde eu quero chegar com elas.

Naqueles momentos que te dou cerveja e vejo tua careta azeda, para depois me pedir mais um copo cheio, lambendo os lábios, até chegarmos à embriagez e começarmos a rir de nós mesmos. Deitar do teu lado para assistir um filme bobo, e perceber o tamanho de sua beleza quando está prestanto atenção em alguma coisa. Ou ainda ouvir você falando mal da sua chefe, malogrando sua suposta incapacidade de sair de perto dela e rezando para que ela não faça sexo.

E, falando em sexo, queria fazer sexo com você. Queria passar uma tarde inteira suando, sem me importar com o celular que chama, a crise aérea ou da seleção de vôlei, que, por sinal, você adora mas eu odeio. Queria te comer em uma piscina, depois da tarde de suor, em cima da mesa da sala, no meio do jantar, enquanto você espera pela novela, pra te mostrar que, diferente do que você fala, o sexo de verdade é bem melhor que na televisão.

Queria poder ficar abraçado em você depois de gozarmos, rindo do seu cabelo revoltado depois do sexo, fumando um cigarro, sem roupa, só para que você fizesse cara de nojo para meu momento clichê. Queria te desejar novamente bem rápido e, com isso, fazermos tudo de novo.

Mas, se não posso ter o que quero, paciência. Você, com sua monogamia apaixonada, tão típica, querendo manter casa, família e cachorro. Eu, com minha estranha mania de querer o novo, sabendo que ele me impede de fixar terreno em qualquer que seja a modalidade de amor. Não combina, né? Mesmo assim, dá uma vontade...

03 agosto 2007

[uma vida iluminada (?)]

[porque eu sei que ela não vai ser publicada na íntegra mesmo...]

Um dos maiores símbolos dos 155 de Teresina não intimida as caras e bocas de Savana Vogue. Agarrada à cruz da Igreja de São Benedito, o travesti sente-se uma estrela, posando para as lentes fotográficas, com empinadas dos seus 3l de silicone no bumbum, bicos e levantar de pernas.


A noite da capital aniversariante não é feita somente de horários para se voltar para casa ou perigos que rondam alguma esquina vazia. O centro de Teresina ainda consegue manter sua vida mesmo quando o sol vai embora e, como parte essencial dela, estão os travestis que fazem ponto nas diversas esquinas do bairro.


"Teresina é uma cidade ótima. O preconceito diminuiu e hoje você consegue ser mais respeitada por ser travesti. Antes, entrar em um ônibus era o fim, isso se o motorista parasse para você. Agora não existe mais esse problema e a gente consegue ser bem tratada em quase todos os lugares", diz Savana, que tem 35 anos e é travesti desde os 22.


A vida dessas "mulheres" é uma montanha russa. Sempre bem humoradas e soltando diversas gírias típicas delas, o mundo em que vivem os travestis do centro de Teresina é único, pontuado por histórias de todos os tons. "Eu já cheguei a fazer até oito programas em uma só noite. Mas isso só acontece quando a gente acha um bofe bem bonito porque aí você não cobra nada e ainda faz de tudo, porque a gente também precisa se divertir", afirma Savana.


O sonho da maioria delas é embarcar para a Europa e ganhar em euro pelos programas, para depois casarem-se com um senhor rico do Velho Mundo. Excetuando o marido rico, receber muitos euros é a meta de Dandara Bionda.


Aos 23 anos, o travesti é voluptuos(a) como as famosas mulatas do Carnaval carioca, só que em versão loira e, depois de passar uma temporada em São Paulo, está de malas prontas para embarcar para Barcelona, na Espanha. "Meu namorado é corretor de imóveis em São Paulo e é louco de ciúmes de mim", garante.


"Pus 700ml de silicone nos seios e 1l no bumbum, gastando R$ 6 mil com tudo. Meu cabelo é metade meu, metade aplique e as minhas roupas, bem, essas eu compro as primeiras que eu acho na loja que caibam em mim", diz, com uma indiferença nada típica de mulheres, quando todos sabem que elas demoram muito para escolher o que vestir. "Demoro mesmo é com a maquiagem, gasto muito com ela, mas tem que ficar bonita para os bofes", garante, rindo.


Quando perguntada se não pretende fazer uma cirurgia para a retirada do pênis, Dandara dá uma gargalhada. "Você é louco? Como você acha que eu vou ganhar meu dinheiro? Os homens querem mesmo é o que eu tenho entre as pernas", revela. Segundo os travestis, quase 100% dos homens que contratam seus serviços querem ser passivos durante o sexo.


E mesmo entre as mulheres de verdade elas fazem sucesso. Dandara fala que recebe muitas cantadas delas, principalmente de ditas heterossexuais. "A gente acaba sendo tudo o que elas querem, porque entendemos a alma feminina e ainda temos uma coisa para futucá-las", afirma, rindo.


Ser travesti não é ser homossexual, apenas. Mesmo que elas sintam-se atraídas por pessoas do mesmo sexo, o desejo se parecer com as mulheres, em relação às roupas e o comportamento social é que melhor os define. E, claro, não é uma opção e sim uma orientação sexual.


"Desde criança que eu queria me vestir de mulher, parecer com elas. Quando eu conheci a Dandara, disse para ela que queria me vestir de mulher. Ela me montou e disse: 'Vai, demônio'. Isso eu tinha 10 anos", garante Rebeca Lorraine que também faz ponto nas esquinas da praça João Luís Ferreira.


A mais espevitada, Rebeca diz que quando desfilou pela casa vestida de mulher apanhou demais dos irmãos. "Um deles é policial e me odeia", diz, sorrindo. Ela também é quem conta as histórias mais fortes entre as entrevistadas.


Fala que, uma vez, levada com uma amiga por um grupo de jovens ricos da zona leste da cidade, teve sua cabeça colocada dentro da piscina, em uma tentativa de afogá-la. "Por sorte, a outra que foi comigo conseguiu ligar para a polícia, mas eles não fizeram nada. Ainda bem que aqueles playboys nos pagaram", lembra.



Mesmo as histórias mais trágicas, ganham conotações engraçadas quando ditas por elas. A mais antiga entre as entrevistadas, com 20 anos de ponto, Dayane Bianca diz que, antigamente, os travestis sofriam muito. "Antes, existia a turma do Melecão, uns riquinhos que se juntavam para bater nos travestis. Isso não existe mais", fala.

Ela lembra que, em uma das primeiras vezes em que se montou, estava próximo a Igreja de São Benedito com amigas. "Do nada, uma delas avistou a turma do Melecão e gritou para que a gente corresse", recorda. Dayane saiu correndo e disse que, mesmo com seus 95 quilos à época, pulou os muros do mosteiro de São Benedito em um único salto. "Ia muito ficar para apanhar, ia?", diz.


Não, não ia. Aliás, não o foi e voltou a rua, como todas fazem todas as noites. Porque o centro de Teresina é mais característico na presença dos seus travestis. E, no seu aniversário, como a todos que formam essa cidade, ela agradece.


Gírias:

1. Aliban: policial

2. Aquenda: ficar com alguém ou prestar atenção

3. Dzar: sair fora

4. O doce: levar uma surra ou fazer algo de ruim

5. Aqué, lajan: dinheiro

6. Ocó, bofe: homem

7. Mavu: ladrão

8. Mapô, racha: mulher

9. Elza: roubo ou ladrão

10. Caé: azar

11. Gravação: sexo oral

12. Eque, baque: desculpa esfarrapada

13. Cleide: polícia

14. Quebrar a louça: sexo entre travestis

15. Bolha: camisinha

16. Buboque: nariz

17. Apeti: peito

18. Mocozar: esconder

19. Baquiosa: mentirosa

20. Gongada, triscada: HIV soropositivo

25 julho 2007

[do you believe in magic?]



É a sensação mais estranha que uma pessoa pode ter. Um misto de felicidade e tristeza, rigorosamente dividido em partes idênticas, brigando constantemente a cada página, sem deixar você pegar fôlego para desistir e sempre te freando a continuar, pelo medo do fim.


Após sete anos, eu li o fim de Harry Potter. Sete anos, quando, ainda em João Pessoa, eu recebi o livro emprestado de uma amiga que, num sorriso, me avisava que eu poderia gostar da história. Eu sempre fico receoso de dizer coisas do tipo, mas confesso que não acho explicação melhor que dizer que essa atitude mudou a minha vida.


É engraçado. Não precisei de Harry Potter para me fazer gostar de nada. Eu já era um bom leitor, adorava ficção fantástica e, quando bem feita, sempre me interessava por coisas direcionadas à crianças. Eu nunca cresci, é fato.


Mas, quando o tive nas mãos, foi como um soco no estômago. Do nada, lá estava eu, engolfado de magia até o pescoço, relutando em crer, principalmente, na força que J. K. Rowling consegue dar à sua narrativa. Ela, por vezes, é modorrenta, prolixa na escolha das tramas, se atém a fatos que não parecem ter importância e, numa crítica que não é crítica, não tem pena dos leitores.


Entretanto, ela consegue desenvolver livros com todos os ingredientes necessários à uma boa história elevados a enésima potência, fazendo você prender a respiração em trocentos momentos, criando personagens sólidos, belos e apaixonantes, que parecem ter capacidade de existir.


Ela faz você desejar o meio mais bobo e romântico de resolução dos problemas para que, na página seguinte, destrua suas ilusões, mostrando que, mágica por mágica, aquilo são seres humanos e a vida não existe para realizar seus desejos, seja com varinha ou não.


Do começo trágico, com um Harry inseguro e desiludido do seu futuro, recebendo a visita do meio-gigante Hagrid e percebendo que sua vida é muito mais além do que um armário na Rua dos Alfeneiros, até o momento final em que o bruxo finalmente descobre qual o seu verdadeiro papel na destruição de Voldemort, Rowling consegue manter uma coerência que, com certeza, é seu trunfo.


Perder-se em meio á sete livros, quando se conta uma mesma história, não é algo difícil. São centenas de personagens, centenas de magias, centenas de detalhes que podem deixar de serem percebidos, como se alguém tivesse jogado um "Evanesco" neles.


Mas a Penseira da dona J. K. é perfeita, guardando cada um dos fluidos pensamentos dela de forma organizada a sempre aumentar a beleza da história. Como diz uma amiga minha, ela não dá ponto sem nó.


Por mais distante que a narrativa possa ir, ela sempre volta ao seu passo inicial, à linha narrativa-mor, que é o embate entre o menino que sobreviveu e aquele que não deve ser nomeado. Todos os personagens com alguma importância, no decorrer do livros, mostram realmente o porquê deles existirem, dando explicações, resoluções, sendo mais violentos, mais detestáveis e, principalmente, nesse último livro, morrendo.


Como disse, ela não tem pena dos seus leitores. Ela escreve uma fantasia com seres humanos e, não importa quem você seja, qual nível de poder você detenha ou qual lado você está, a morte é o que move uma guerra. E ela não perdoa ninguém, numa contabilidade de corpos tombando que parece esquecer a nossa capacidade de, realmente, se apaixonar pelos personagens.


Cedrico foi tirado da vida para nos alertar dessa tendência rowliana de mostrar que a morte é o que mantém as razões de vencer-se uma guerra. Caso Voldemort não fosse impedido, como aconteceu nos livros seguintes a"O Cálice de Fogo", mais e mais pessoas tendiam a ser levadas por ele, num esforço de conquistar o poder que cegava Voldemort. Ele, em seu papel de essência do mal, ganha contornos de entendimento.


Não que sua matança possa ser justificada ou que sua vilania tenha sido pequena, mas, apesar de todos os males causados, é incrível saber que, tanto em erros quanto em acertos, Voldemort se mostrou um vilão extremamente crível, excetuando, claro, o que possa sair da sua varinha.


E assim o é por um dos fatos que mais me divertem na obra da inglesa: a capacidade dela em não ser maniqueísta. Apesar de ser um livro infantil, Harry pode sim ser mau, mesmo que o seja com aqueles ditos vilões, como, no sétimo livro, ele executa duas das maldições imperdoáveis, uma delas a Cruciatos, usada, especificamente, para causar dor..


Rony pode ser covarde e escroto, mas sabe reconhecer quando erra. Hermione pode ser limitada nos seus pensamentos mágicos (praticidade trouxa, eis o "problema da bruxinha"), contudo, é quem salva Harry quando inteligência é a necessidade primordial.


Rabicho pode ter lampejos de purificação, nos brindando com uma das mortes mais trágicas e mais bem pensadas do sétimo livro. Fleur pode adoçar o coração, Neville pode ser corajoso, Luna, racional, Umbridge, mais nojenta e Voldemort, bem mais cruel.


A sétima parte de Harry Potter consegue, incrivelmente, fechar a série. Apesar da tradução terrível, apesar da pressa intensa de ler, apesar de quase perder o pescoço e pensar, a cada morte, em desistir da leitura, "As Relíquias da Morte" me parece ser o melhor livro dos sete.


É tão completo, recheado de referências aos outros livros, bem amarrado, que fica difícil pensar em outro final. Depois das milhares de teorias feitas pelos fãs, J. K. confirma Harry como uma das Horcruxes de Voldemort, mas a explicação para isso é diferente do que todos esperavam.


Snape se mostra sim um verdadeiro aliado de Dumbledore, mas sem perder seu ódio por Harry: todas as suas ações foram em vista a vencer o remorso de ter entregado a mulher que amava, no caso a mãe de Harry, para a morte. Em um capítulo inteiro dedicado às suas explicações, percebemos o quanto ele foi decisivo em toda a saga para que seu desfecho pudesse ter um final feliz.


Rony e Mione finalmente dão seu primeiro beijo, de uma forma tão simples, tão natural e assustada, que é engraçado pensar o quanto ele foi imaginado por todos os fãs. Hpgwarts se transforma em campo de batalha, numa sequência incrível de acontecimentos, que vão desde de demônios do fogo à luta campal entre gigantes.


A imaginação de Rowling parece que conseguiu saltar mais longe com a idéia do fim. Não sei se por maturidade ou simplesmente por uma paixão final, ela escreve momentos de parar a leitura e repetí-la, para saber se realmente aconteceu, como, por exemplo, quando coloca um dragão sobrevoando Londres.


A sétima parte é digna de ser chamada de última, concluindo um desejo que foi de todos os fãs de ver Harry vitorioso, mas de uma forma com sentido, sólida, trágica e bela como se fosse uma história de verdade e que cada coruja que passa pode estar levando mais cartas de Hogwarts porque assim lutaram Potter e todos os outros.


J. K. Rowling, provavelmente, jamais vai escrever nada comparado à Harry Potter. Como ela mesma declarou, seu único desejo agora é conseguir apaixonar-se por uma história tanto quanto a d"O Eleito" conseguiu fazer.


Por mais sem sentido que possa parecer, é o que eu desejo. Harry Potter tomou parte da minha vida, ganhou ares de vício, me fez perder sono, quebrar braços de cadeira de cinema, reler livros à exaustão, agüentar filas homéricas, sofrer com a falta de entendimento das pessoas, me sentir uma criança, correr desenbestado pelo shopping, comprar livros em pré-venda, desistir de saídas por ele, chorar, rir, me angustiar, ter taquicardia, suor frio, manhãs, tardes, noites de leitura... e, mesmo assim, manter um sorriso aliviado, de quem está feliz simplesmente por saber que terá um pouco mais de magia pelo tempo que levar... Agora, eu só quero manter a lembrança dessa história que me fez acreditar, de novo, em mágica... e contá-la, esperando o sono, para os meus filhos...


À ela, meus sinceros agradecimentos...

15 julho 2007

[o que lembra a minha infância?]


1. Acordar cedo sem motivo;
2.
Bananada;

3. Suco de acerola com leite;
4. Farinha láctea;
5. Levar café da manhã na cama para a minha mãe no dia dela;
6. Almoço na casa das vovós;
7. Presentes que o papai trazia de viagem;
8. Brinquedo embaixo da cama para pensar que tinha sido o Noel;
9. Viagens de fim de ano para Forteleza;
10. Bandeirinha;
11. Trisca;
12. Patins in line;
13. Esfolação de dedos com o (pseudo) futebol;
14. Sete pecados;
15. Garrafão;
16. Mata;
17. Polícia e ladrão;
18. Se esconda;
19. Futpraça;
20. Carinho de rolimã;
21. Soltar muuuuita pipa ( que lá a gente chamava de papagaio);
22. Andar por dentro do rio, mesmo ele sujo;
23. Se embrenhar no mato para encontrar as talas para a pipa;
24. Comer baião de dois da vó;
25. Estátua de João Leopoldo;
26. Caldo de feijão da vovó;
27. Filme todo fim de semana;
28. Pouquíssimo estudo;
29.
Caverna do dragão;

30. Pica-pau;
31. Tom e Jerry;
32. Cavaleiros do Zodíaco;
33. Yu Yu Hakusho;
34. Shurato;
35. Pernalonga e Patolino;
36. O rei leão;
37. Alice no país das maravilhas;
38. Pinóquio;
39. Branca de Neve e os sete anões;
40. Risque e Rabisque;
41. Melhor amigo;
42. Dormir na casa do melhor amigo o fim de semana inteiro;
43.
Ver meu pai deitado no sofá, ouvindo as várias das músicas que me formaram;
44. Lasanha da mamãe;
45. Meu primeiro livro lido por vontade, “A macaca Sofia”;
46. Cric (clube da antiga empresa que meu pai trabalhava)
47. Campos Sales (CE);
48. Brigas seguidas de perdão mútuo com minha irmã;
49. Primos, muitos primos, sempre muitos;
50.
Natal em família;

51. Ceia de natal;
52. Ser chorão (:P);
53. Ser elogiado por ser educadinho;
54. Mas contar piadas bem sujas, a pedido dos adultos, e ainda passar por inteligente;
55. Falar, falar e falar;
56. Andar muito de bicicleta;
57. Super Nintendo;
58. Colecionar tazo;
59. Colecionar carteiras de cigarro;
60. Revista Herói;
61.
Me apaixonar por uma menina e dar a ela um anel daqueles que vinham dentro de salgadinhos baratos;

62. Me apaixonar por outra e pedir que ela gostasse de mim a uma estrela cadente, porque deu certo com o Gepeto e quis imitar;

63. Me apaixonar por uma terceira e, dois anos mais tarde, ver meu primo se engalfinhando nela e sentir como isso pode ser frustrante para sempre;
64. Brigar somente uma vez e quebrar os óculos do garoto;
65. Ter muitos colegas e poucos amigos;
66. Olhar muito;
67. Cair mais ainda;
68. Bombinha de asma;
69. Querer ficar na piscina sempre mais e mais;
70.
Tomar banho de chuva;

05 julho 2007

[estrela solitária]


Minha relação com o futebol se deu em três instâncias básicas: a infância de certeza que eu era um perna de pau, a adolescência de percepção que nem para torcedor eu nasci e a idade adulta para constatar que ver seus amigos sofrendo durante um jogo por algo que você é indiferente pode ser extremamente engraçado e divertido, principalmente quando acompanhado de cerveja.

Já envolvendo biografias, eu sempre fui fascinado por elas. A certeza de que minha leitura é sobre algo que realmente aconteceu deixa com que minha mente avance na possibilidade de que minha vida seja, senão tão interessante quanto a dos biografados, pelo menos com a idéia de que as coisas podem sim vir a serem dignas de livro para mim.

Bem, como já é de praxe, eu sempre começo textos embromando para chegar ao assunto principal. No caso daqui, o assunto é a biografia “Estrela Solitária: um brasileiro chamado Garrinha”. Escrita por Ruy Castro, um biógrafo já consagrado, que fez livros da vida de Carmem Miranda e Nelson Rodrigues, o livro é a personificação daquela história de ascensão, apogeu e queda.

[digressão do dia: aprendi o que eram essas três palavras lendo quadrinhos da Turma da Mônica, quando o Cebolinha bola um plano quando aprende sobre essas palavras e diz que essa será a queda da dentuça. Bem, vocês imaginam o que aconteceu no fim, certo?]

Garrincha foi, de verdade, o deus da bola que todo mundo se acostumou a ouvir, nos saudosismos futebolísticos que são característica dos brasileiros. Durante todo o livro, Castro tenta nos passar (de forma bem passada, diga-se) a idéia de que Garrinha sempre jogou por prazer, não mais que isso. Dinheiro, fama, gols? Quem se importa?

O lance era mesmo poder brincar com a bola, fazê-la passear por seus pé e, num tilintar de olhos seguido de um espasmo de suas pernas tortas, mandar um adversário ao chão, se perguntando como algúem com os membros inferiores tão deformados (sim, essa é a palavra que o autor usa) possa ter tanto domínio do esporte.

Garrincha adorava tanto estar com a bola no pé que teve de ser educado para que tentasse enxergar que o objetivo era fazer gols e não fazer zagueiros comerem grama. Mas, se tem algo que ele jamais entendeu na vida era a necessidade de ser responsável, seja fazendo seu time vencer, seja com seu problema maior, o alcoolismo: foram inúmeras as tentativas de levar Garrinha a estudar, a treinar, a fazer tratamentos ou a qualquer coisa de que ele não tivesse vontade. Ele só fazia o que dava na telha.

Essa dificuldade em que ele fizesse o que era preciso sempre esbarrava no seu jeito moleque, de sorriso largo e fácil, de forma que todas as brigas eram contidas em sua ingenuidade. Qualquer pessoa perdoava Garrincha, desde técnicos que ele desfalcava à esposas que ele traia. E, se o quesito é mulher, traição era necessidade.

O homem era viciado em sexo. Todos os relatos do livro falam sobre a sua potência sexual, do seu nunca cansar e do tal membro bem maior que a média que ele possuia. Garrinha transava muito e sempre e todas as mulheres que teve conseguiu satisfazer mais que os outros. Não é à toa seu número oficial de filhos ser 14, mas sempre em dúvida pra mais, dado seu histórico.

Tudo parecia flor na vida do craque, sendo a metade inicial do livro somente de festa e alegria, na transformação do mito que o define. Daí em diante, esqueçam momentos felizes. A vida de Garrinha descarrilou de uma forma que você fica pedindo para que o livro acabe logo, tamanha angústia que se dá. O homem perde casa, perde dinheiro, perde filho, perde carro, perde jogo, perde até as pernas, que por conta do joelho, ficam, como dizer, podres.

Na época do apogeu, já chegando no declínio, entra na vida de Garrincha a mulher que, na minha opinião, merecia uma biografia tanto quanto ele: Elza Soares. Cara... Eu não fazia idéia do quanto a expressão “comeu o pão que o diabo amassou” poderia ser tão verdadeira. A mulher foi estuprada, apanhou, teve uma pá de filho, mas aí descobriu que sabia cantar, fez um escarcéu com sua voz e tornou-se diva.

Isso tudo transando freneticamente com Garrincha. Ele e Elza faziam da cama o cômodo principal da casa, ao ponto de vizinhos sentirem-se incomodados, perguntando-se como seria normal duas pessoas fazerem tanto sexo. A relação dos dois era baseada no carinho que Garrincha dava à Elza e a força que esta via em nele, sempre percebendo que ele tinha potencial para ir além. As frustadas tentativas de Elza em dar aulas à Garrincha davam uma certa medida de como ela cria nele.

Suas montanhas russas financeiras, tendo elas perdido três casas, vários carros e muito dinheiro nessa coisa toda, jamais foi motivo de tirarem o bom humor. A única coisa que realmente os afastou, sem a percepção de nenhum dos dois para a gravidade do problema, foi a bebida. Garrincha era, literalmente, um pé de cana. Bebia muito e pinga ou conhaque, nada de cerveja. Sua decorrada na segunda metade do livro é quase toda decorrente dessa doença que, à época, não foi vista como tal.

Falando mais de Ruy Castro, sua prosa é, no mínimo, excelente. Tem uma fluidez legal e, se acaso me senti tentado a deixar o livro sem terminar não foi por outra coisa senão a vida terrível que Garrincha levou depois de sua ascensão e seu apogeu. A queda não foi brusca, mas foi de tal modo intensa que tudo na vida do jogador se desfez ao mesmo tempo em que seu futebol ficava relegado ao passado.

Uma vida trágica, forte e, sem dúvida, com vários espetáculos. Digna de uma placa.

20 junho 2007

[o que prendo em meu coração]



Quando uma música é classificada como latina, a primeira imagem que me vem à cabeça é a Conga, da Glória Stefan, dizendo que você não consegue se controlar. Ou, mais recente, do latin-generic do Capim Cubano, com sua pose metrossexual e seu som caribenho-nordestino.

Entretanto, depois de Buena Vista Social Club, sei que existe bem mais que salsa e merengue nesse bolo e que, da ilha de onde saiu Ibrahim Ferrer, o som latino vai além dos estereótipos. Daí, pensar em toda a nossa miscigenação musical aliada à latinidad cubana é pensar em um som que, mesmo que não revolucione, passa um frescor de inteligência que arrebata.

Esse frescor vem da música de Marina de La Riva. Filha de uma mineira e de um cubano exilado no Brasil, a brasileira relutou em alçar-se à carreira, mas, ao fazê-lo, conseguiu reunir com talento impecável o charme cadente da música latina com um sopro de brasilidade.

Seja nas participações especiais, do gabarito de Dom Chico Buarque, em “Ojos Malignos”, e Davi Moraes, no frevo-samba-bolero-bossa “Ta-hí (pra você gostar de mim)” ou no belíssimo forró/tango (?) "Maria Fulô/ La mulata chancletera", que nos avisa que “chorar não ajuda ninguém”, seja no espírito cubano sincero de “Te amaré e después”, Marina é mais que outras das belas vozes femininas que vem tomando de conta da cena musical brasileira.

Com músicas em português e espanhol, a cantora quis fazer uma conexão entre os clássicos cubanos e a bossa nova. Em suas entrevistas, Marina fala que a inspiração para o CD veio do mar, o que provavelmente pode ser explicado pela sensação de tranqüilidade que se tem ao ouvir sua voz.

Porque, apesar de estar dentro dessa dita nova safra de vozes femininas, Marina de La Riva flerta com a inovação sem distorcê-la, juntando os tempos musicais brasileiro e cubano sem apelar para novidades sem caráter inovador, método por muitos usado sob justificativa de se estar fazendo algo diferente.

O som de Marina não é novo, sob a ótica de construir um outro estilo musical. Entretanto, é novo em relação à sua humildade ao cantar, numa levada tranqüila e sensível de voz, com instrumentação limpa e bem trabalhada, na qual todos os instrumentos têm o seu valor levado em consideração, mas a voz é quem os comanda. Diferente da pretensão de muitas cantoras que levantam bandeiras mpbistas.

Além do mérito musical, cabe um elogio ao trabalho primoroso dado ao encarte, suficientemente bem feito para que a idéia da compra de cópias piratas passe longe. Com fotos da bela cantora e as letras das músicas, ele vem de bônus nesse ótimo trabalho inicial de Marina de La Riva, que toma a frase do poeta José Martí, mártir da independência cubana, em sua apresentação dizendo que com esse disco “Yo sacaré lo que em el pecho tengo...”

17 junho 2007

[e se eu acreditasse?]


Eu, realmente, não me dou bem com a fé católica. Sua doutrina de promover o sofrimento como forma de elevação de espírito sempre esbarrou na minha incontinência carpedieana, moldada à ferro durante toda a minha infância de temores ao tridente de satã.

Por isso, desde que soube que ia cobrir a Caminhada da Fraternidade, uma espécie de micareta do senhor que acontece há 12 anos (acho) em Teresina, fiquei com pé atrás. Como escrever sobre algo tão enraizadamente católico se ainda hoje o paradoxo da minha fé me impede de ser 100% livre?

O lance de imparcialidade é balela, já que a minha predisposição era de achar ruim, se não o evento o fato de ele louvar uma fé que me sufoca. Some isso à minha ressaca habitual pós-sábado e a minha completa ojeriza à necessidade de trabalhar-se no domingo e você percebe o quanto eu parecia feliz.

Mas... não sei se o clima fundindo a cuca ou a evaporação do álcool causando um efeito inverso, o fato é que eu comecei a ver que, muito mais que um simples ato de fé católica, a caminhada conseguia ter um viés mais ecumênico.

E dele, a capacidade de ir além das palavras sem sentido prático dos sermões aparecia e a gente começava a perceber a necessidade que muitas daquelas pessoas tinham de se dizer conectadas aos seus deuses por meio daquele esforço.

É mais que ser católico, evangélico ou qualquer coisa. A fé deles perpassa a explicação, que eles mesmos não buscam, em um ópio litúrgico que ao mesmo tempo em que me assustava me fascinava.

Eram mãos levantadas com olhos fechados, idosas bem idosas caminhando os 7.6km sem pestanejar, até jovens que pareciam realmente ter acordado na vontade estar ali. Fiquei pensando no quanto a gente precisa se apegar em algo para sentir uma verdade que não existe.

Sabe... não precisar perguntar-se "de onde eu vim?", "pra onde eu vou?", "tem lugar na janela?"... Simplesmente pegar a resposta feita e dividí-la por todas as dúvidas que venham a surgir além dela, maximizando o poder da fé como algo que transcende o acalento do pecador.

Porque a subjetividade do pecado é tão caleidoscópica que me dá muita raiva pensar que pequenas estripulias do meu irmão podem ser consideradas como tal e, com isso, criar nele uma dúvida que ele pode levar pra toda a vida.

Ou que meus desejos mais internos sejam considerados passagem sem volta pro lado do tinhoso, mesmo eu sabendo que não estou fazendo mal algum. Enfim... essa discussão é eterna.

Meu lamento era pensar no quanto essas pessoas não pensam (!). No quanto elas relegam poder total aos desígnios da fé, como se as montanhas removidas fossem verdadeiras e que a ressurreição é o que mais faz de Jesus um cara digno de levar a alcunha de salvador.

[Pausa para a digressão: por que não pensar que o seu Jesus era "o" cara mesmo pelas coisas que pregou e não pelo vinho que fez surgir? Palavra fica... bem mais que fazer alguém andar, o cara fazia muitos escutarem. Acho que a gente deve se ligar mais no homem e menos no deus]

"Triste é pensar demais. Não é dom, dádiva ou vocação. É castigo. É destempero. É morrer um pouco a cada dia por não ter lugar para repousar a alma", já diria uma sábia do norte.

Vai ver é isso. Para que pensar se eu posso fazer uma longa caminhada na qual eu ficarei mentalizando que tudo o que eu fiz de ruim (?) vai embora? Não pensar é ter fé que o mundo se azeita sozinho...